segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

caboca veia ruma embora
gosta nadinha dessas rapariga
(é cada uma história triste home
lá pra riba não tinha dessas sabença)
se deu deu
tinha coisa de força nem de tomado
famia que ficava trepado olho
escorregou tá moiado
agora ruma embora pruque adescobriu
coroano já era cabeça de mulato
pode não home
mãe mesmo tava de arrelia
nada de ponhá pra fora
mas quando vira o olho da lua tá virado
e nenê que coroou não morre mais
agora olha o inferno que danosse
esperta caboca veia saiu que saiu

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

amarela

a parte do sol que dói
a parte da flor que fica
a parte do ovo que mata
a parte que abate o cego
à parte o amarelo nós temos
figo amora goiaba melancia

o que há de mim nessa parte
dessa casa que me abriga
dessa cor dessa apatia
pinga-fogo consciente
queima mão filosofia
a buscar quem oriente
coincidente geografia



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

       "Em toda parte há doidos malucos com tantas certezas" A. C.

na maca dos réus estão
ignorantes e mortos de felicidade
recebendo a bandeja fria

no tempo vago cabem a tv onde assistem
e os pequenos conflitos onde imitam

às vezes toca o telefone
não, não é o filho
é sempre uma conta em atraso, um pedido de doação pro natal

uma pontada no peito a enfermeira
examina toca
outra pontada o médico
estetoscópio metal que olha nos olhos
acalenta fiel o peito
denuncia o compasso simples
- mas a dor
simples
- ai, doutor
simples
- mas
talvez um calmante (enfia um mata leão nessa velha)

- Jesus a luz
a comida do cachorro
cadê meu filho
Jesus
meu pai
qualquer trocadilho panfletário
seria tema da revolução
que duraria uma parte desta geração

a outra parte, ressentida,
diria versos sobre a fome e a morte
e morreria de fome

empunhando flores vermelhas
ou armas brancas
o funeral marcharia.
à miúde, repartiriam a comida os soldados

lá em cima os generais,
percebendo a afeição dos pequenos,
plantariam bombas em seus bolsos
esconderiam as fotos das crianças
levariam os corpos das viúvas de cor

surgiria um novo tempo não televisionável
depois de alvejadas nossas peles de macacos
e todos usariam coroas azuis

domingo, 18 de novembro de 2012

prolactina

por sua culpa essa conta
canalha
essa ordinária sua amiga

sua víbora nossa lembrança morta
aqueles porres e outros
que estão sendo agora não sei se mais

essa vergonha desmamada da vida
o perigo de sentir em verdade não verso
escrever esse pudor montado
esse planejamento hoje não,
está dito:

a raridade de um pai na vida do filho
eu tive que encontrar
e é difícil de ter porque o pai não está ali
na verdade é a mãe que é mãe independentemente
o pai não
está ali mas a mãe
e mãe é a mão que

intelectual

entende ao outro entende
entende tudo menos
entende os outros

os outros menos entendem
entende a mãe o pai
perdoados no túmulo após

convencido de que eu sempre
compreendido compreendendo
sagacidade total, esclarecimento do caralho

enquanto em vida tudo é inimigo tudo

combate a ferro tudo

faz de conta que você nunca

e é aprovado o projeto
defende outro
você ignorante permanece
para ele blue label

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

cabelo preto cabelo marelo
cabelo vremeio cabelo roxo
cabelo duro cabelo na mão
cabelo sujo cabelo grosso
cabelo embolado cabelo ruim

cabelo no peito cabelo de home
cabelo no chão na comida
cabelo bom cabelo de anjo

trança em três e vai
moldando a cascata
vira pro lado e prende

sábado, 26 de maio de 2012

poética

pensamento é pensamento antes de se fundamentar
pensamento discorda de si
é algo mais leve que sentido

escrever tem uma fórmula quando se quer chegar em determinado ponto
pensamento não
há quem escreva como pensa esse não quer ser lido
não se importa
o prazer é todo dele.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

ninguém aguenta

todo dia reclama
 Paletó em série não cai como cerzideira velha.


feito botãozinho
dizendo não e sim
não vê hora da sexta lamentando já domingo


sem meias palavras como precisaram os meninos
sem também alguma audácia que fizesse dizer algo
não diz


desabotoa deita do lado dela
diz que reza ninguém sabe mais que santo




deus fica só quieto no canto espiando

domingo, 18 de março de 2012

todos nós vivemos nossas revoluções

deveríamos nos ater ao trivial
mas vivemos nossas revoluções

no fim das contas a revolução do trivial não acontece
voltamos pra casa no caos do trânsito
com os bolsos vazios de escândalo e depravação

e somos os primeiros a sentir orgulho de nossa condição careta
de nossa casa limpinha
de nossos olhos azuis

domingo, 15 de janeiro de 2012

poética

cansaço de ser tido com a mesma estranheza que causaram fernandos pessoas e drummonds.

cansaço de procurar o que existe só por dentro das coisas que se verá jamais.

cansaço desses argumentos re-citados de bibliografias mesmas

mais que fucôs e nitches e sartres possam ter lido eu não sei

outra via não há só o cansaço.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

tava frio

adiantava quebra-quebranto, adiantava nada
tava frio subia de jeito não

ma memo meio maomeno
molengô i moiô
há meio de dormir
barulho desse
não

vira e mexe a ladainha
entra como um                               ouvido dentro
só assim sim

domingo, 11 de dezembro de 2011

expressão
é apenas uma linha que vai aparecer na testa
quer se irrite ou sorria

para que possa gargalhar
até o cu fazer bico e não franzir
a testa:
botox

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

mulher de anca boa

tô eu aqui arreado catando coisa
passa mulher de anca boa

a gente não pode pegar

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

era bastião quem lhe tomava a caneta das mãos
chovia forte feito reza os olhos
boca não dizia coisa
desejo era que um raio partisse o papel
soubesse ele ler como fingia, estaria frito
graças a deus ignorante coitado

bastião não conhecia as regras menino
papéis o deixavam nervoso
rosnava punha medo
perigo não tinha nenhum não
deitava com os cachorros
urinava árvores
latia carteiros

domingo, 3 de julho de 2011

Relato de parto


Ser responsável significa designar alguém capacitado para gerir suas escolhas? Ser responsável não deveria ser ter consciência dos processos aos quais se submete e optar por eles estando devidamente informado?
Julia e Gabriel são um casal irresponsável. Decidiram ter um filho e, sabendo que Julia teve uma trombose venosa profunda na perna esquerda em 2002, depois do parto cesáreo de seu filho, procuraram o pré-natal de alto risco do hospital universitário Pedro Ernesto (HUPE).
Em 2002, todo o pré-natal foi realizado dentro dos padrões: exames em dia, um ganho de peso acima do comum, mas com a PA e a glicemia controladas, sem riscos. Julia só não sabia o que ia acontecer, como ia acontecer, o que poderia sentir, quanto tempo duraria, quais eram os sinais de que se iniciava o trabalho de parto. Saiu um pouco do tampão mucoso, Julia foi ao hospital onde a internaram com ocitocina na veia e 10h depois se fez a cirurgia. Além dos traumas óbvios por não ter participado do momento de seu parto, por só ter visto o seu filho ao acordar no dia seguinte, por ter sido negligenciada em informação, afeto e apoio, não cabe estender o relato do passado. Apenas dizer que, sem saber sobre as condutas do puerpério, Julia tinha medo de andar, repousou mais que deveria e fez um edema que foi tratado como TVP (heparina e anticoagulante oral). Meses depois, realizou o Doppler que não constatou a TVP, suspendeu o tratamento e nunca mais teve problema semelhante.
Oito anos depois, grávida de cinco semanas, iniciou o pré-natal realizando todos os exames e condutas padrão para o suposto caso. Mensalmente, chegava à consulta, checava peso e exames e era encaminhada a retornar em quatro semanas. Por volta da 30ª semana, recebeu o diagnóstico que excluía riscos para o bebê (não tinha lúpus, nem SAF, nem nenhuma outra síndrome que justificasse a possível – mas não diagnosticada – TVP, e as cinco ultrassonografias com Doppler que realizou não apontavam nenhum risco).
Neste momento, Julia lembrou-se de uma amiga que pariu na água e posteriormente tornou-se doula. Lembrou da paixão com que ela falava de seu parto e de como as mulheres devem se preparar para ele. Em sua condição social, ficava difícil assumir os custos de um acompanhamento com doula. Acreditava, ainda, que a cesárea anterior limitaria suas chances de ter um parto por via vaginal. Mas queria se informar, conhecer as salas de pré-parto do HUPE, mobilizou as mulheres do pré-natal a solicitar uma visita, a conhecer os procedimentos realizados como rotina na unidade, a entender como poderia ser o momento do parto. Na suposta 38ª semana de gestação, recebeu uma resposta da doula Gisele que, em uma visita, informou o casal sobre muitas questões. Deixou vídeos, slides, bola suíça, óleos, perguntas a levar para o HUPE e a expectativa de um parto orientado pelas escolhas do casal.
Julia retornou ao pré-natal perguntando sobre os procedimentos de rotina (episiotomia, indução com ocitocina, posições de parir, intervenções no bebê). Não havia resposta para todas as perguntas, nem sequer o conhecimento de todas as questões, portanto, Julia percebeu que não se tratava de um serviço especializado em parto e sim de um serviço de excelência em acompanhamento de gravidez de alto risco. Julia, pela suspeita de TVP em 2002, havia garantido seu direito a permanecer assistida na unidade, mas chamavam sua atenção por ter suspendido o AAS por conta própria. Julgava que, sem riscos e sem a confirmação do episódio anterior, a medicalização era desnecessária. Neste momento, surgiu, pela primeira vez, a ambiguidade do conceito de responsabilidade. Sem nenhuma intercorrência clínica que justificasse a medicalização e com uma azia que só passava com mais medicamento (omeprazol), Julia fez uma escolha pela qual se responsabilizava: comunicou aos médicos e à família que não ia tomar remédio. Logo, era irresponsável.
Com a chegada da 39ª semana e uma ansiedade absurda (o bebê já podia ter nascido há duas semanas!), Gisele indicou a enfermeira obstetra Marilanda Lima. Foi amor à primeira vista. Foi a certeza de que parto é saúde e não doença, parto é cura e não trauma, parto é nascimento (de uma criança, de uma mãe, de um pai, de uma família, de um lar). Em uma visita, as questões que ficaram pendentes em 12 consultas de pré-natal se esclareciam. A paixão pela mulher que a ajudaria a parir aumentava. Todo o medo, a dor, a culpa, a dúvida eram substituídos pela paixão.
Gabriel comprava a idéia e era presente sua opinião em todo o processo. Iniciava-se o parto com todos os envolvidos devidamente cientes do que poderia acontecer e apaixonados pelo momento que se aproximava... Se aproximava... 41 semanas e o HUPE (sem examinar) encaminha Julia para a internação. Marilanda examina Julia e diz que o colo não é de 41, mas de 39 semanas no máximo. Pede uma ultrassonografia e, neste momento, todo mundo enlouquece. Já era para ter nascido há três semanas! Pode morrer a qualquer momento! Vocês não podem fazer isso! O obstetra amigo de não sei quem disse que não pode esperar mais! Nenhum dos palpites vinha respaldado em exames clínicos de Julia.
Marilanda propõe uma sessão de psicodrama. Julia caminha pela sala e para numa postura que mostre o que pode atrapalhar o parto. Julia deita no chão e estende os braços. Imediata e compulsivamente começa a chorar, soluçando, e é amparada por Marilanda. Marilanda pede que Julia mude esta cena, mas Julia trava. “Eu faria assim: poria-me de cócoras e daqui ninguém me tiraria.” Julia entendeu, e acredita que a posição de cócoras tenha um significado para a parteira e para muitas outras mulheres, mas dentro de si, não sente conforto nesta posição. Sabe que não vai parir de cócoras, mas sabe que deveria ousar ao pensar nas posições de parto. Possibilitar ao seu corpo uma posição mais ativa. Entende a questão, mas não a resolve.
Julia, em casa com Gabriel, dançando ao som de pontos de umbanda, num apaixonado ritual de despacho, ateou fogo à carta de internação do HUPE.
A ultrassonografia mostra normoidramnia, placenta grau II, apontando para uma gestação de 37/38 semanas. Nenhum dado clínico sugeria sofrimento fetal, apenas uma data provável de parto divergia duas semanas a cada profissional que fazia a contagem. Confiariam num profissional que traz no carimbo o talo duma instituição respeitável ou se lançariam ao entendimento das questões ali postas com dados e exames a cada dois dias aferidos? Os irresponsáveis, mais uma vez, tomaram as rédeas das suas vidas!
Às 40 semanas e 2 dias (ou 41 e 6 dias), Julia acorda às 6h com contrações e sente o tampão mucoso sair. Acorda Gabriel que diz: “Amor, é o tampão!” Ele sabe o que é, leu, se informou, participou de todo o processo e já é pai muito antes de assinar qualquer papel. Ligam para a parteira, ela chega, examina, informa sobre o processo, orienta a caminhar, namorar, e diz que volta às 18h. Contrações mais ritmadas, colo mais apagado e 3cm dilatado, Marilanda propõe outra sessão de psicodrama. Julia caminha pela sala. Pensa no seu trabalho de parto, nas suas escolhas. Faz uma expressão que represente o que a impede de prosseguir. Abaixou-se num canto, só. Culpava a mãe, dizia que estava reproduzindo, que aquela não era ela, mas é claro que era. A Julia irresponsável sabia da sua responsabilidade. Sabia da solidão de assumir os riscos das suas escolhas. E os medos. A todo momento estava presente o fantasma do conforto de uma cesariana: pegar o carro, em 15min entrar na maternidade e em três dias voltar para casa com o bebê. Conforto, porque é uma escolha universal, institucionalmente homologada coberta de razões. Conforto de assumir uma postura passiva e deixar-se ser o que não se quer, para depois poder culpar a vida, a sorte, deus. Ao mesmo tempo, o desconforto de fugir de si mesma, de deixar que escrevam sua própria história e crenças. “Agora faça uma postura para mudar esta.” Julia abraçou Gabriel, chorou. Ele disse que estava com ela, que a apoiava. Não era isso. Mas funcionou. Julia viu que não estava só, havia o companheiro e a parteira que dava também o crivo institucional à decisão irresponsável. Em todos os momentos buscou nos olhos de Marilanda este selo e encontrou.
Daí pra frente, entrou e saiu do transe do parto alternando medo (sentada no sofá) com vontade de parir (dançando, na bola suíça, de quatro). A dor nas costas a levava a querer apoiá-las, não adiantava massagem. O momento da dor gerava uma paralisia que Julia reconhece como despreparo físico e psicológico. Sentia um medo enorme de morrer de dor, daquela dor não ser normal, achava que os olhares de Gabriel, da doula Ana e da fotógrafa Adriana não eram firmes. Buscava alguma fraqueza no olhar de Marilanda. Aquele olhar firme a fazia encontrar dentro de si as respostas que já tinha. “O processo é seu e está em suas mãos. Eu sei disto e estou aqui.” Era isso o que diziam os olhos da parteira.
Julia entrou na piscina. Sabia que só deveria entrar na água no período expulsivo, então imaginou que estava acabando. Relaxou. A água quente relaxou os músculos da lombar, dos ombros (que tensionavam a cada contração). Quando veio a primeira contração na água, veio mais forte que antes, pois pegou os músculos relaxados, e voltou o desespero. Julia lutava para mudar de posição, mas ficava sentada na piscina, não tinha tempo entre uma contração e outra para se movimentar. Tentou ficar de quatro, de lado, acocorada, mas a borda da piscina tocando suas costas dava uma sensação de amparo da qual não podia abrir mão. Gabriel entrou na piscina a pedido de Julia, que logo desistiu da companhia, pois com ele tinha ainda menos espaço para tentar se movimentar. Pediu para chamar Marilanda e disse que não estava aguentando mais, que não ia conseguir. A parteira a examinou e foi firme: “Escuta aqui, eu não vou te levar pro hospital. Você vai parir aqui.” Julia percebeu que aquele era o momento da decisão, que ir ou ficar significava tomar as rédeas da situação e responsabilizar-se pelos resultados.
Marilanda examinou Julia uma última vez e disse que, ali na piscina, o parto poderia levar mais umas duas horas ou meia hora caso se deitasse para ela rebater um colo... Na verdade, Julia só ouviu “2h X 30min”. Toda aquela entrega à dor transformou-se em um ímpeto de finalizar aquilo tudo. “Lá está pronto para mim? Preparem a cama com Adult Care, vou levantar quando estiver tudo pronto.” Julia, com muita força de vontade (mas graças à força de Ana) pôs-se de pé e foi para a cama.
Não conseguiu adotar nenhuma postura lida nos manuais de parto ativo. Nem deitar-se de lado, pois suas pernas já não respondiam mais. Toda a sua vitalidade estava nos pulmões, no diafragma, no útero, no períneo ótimo e na mão de Gabriel. O parto aconteceu na posição que Julia não queria antes de conhecer seu corpo e seus limites: deitada. Empurrava sem gritar, concentrando as forças para atravessar a barreira da dor. Entre as contrações, ouviu parteira pedir à Ana que apoiasse o bebê para que não subisse. Julia não achou invasiva a manobra, pois sabia que a posição que escolheu gerava esta dificuldade.
“Estou vendo a cabeça, ela é loirinha! Quer tocar?” “Não!” Julia queria fazer força. Julia sente que estar ativa no processo pode e deve ser muito mais do que fez, mas reconhece que, neste parto, fez o máximo que pôde. Não ter adotado outra posição não se deve ao fato do hospital ter um padrão e sim à sua limitação física, à sua escolha. Teve vontade de desistir porque se concentrava na intensidade da dor e não se abria para a infinitude do momento. Em qualquer hospital onde houvesse um anestesista, o processo certamente pararia ali: Julia pensaria na dor, a dor pararia. Julia lembra que doeu. Muito. Mas não se lembra da dor. Entrou na partolândia que, para espanto de quem a conhece, era um lugar sereno, sem palavras, onde sentia os toques da parteira amaciando seu períneo, o cheiro do óleo de coco, as mãos de Ana numa perna e no abdômen, cada veia da mão de Gabriel (sempre presente), a orelha de Lucia passando pelo canal vaginal, o roçar do cordão por todo o períneo, a passagem de cada membro de Lucia, os olhares da doula para a parteira, os cliques da máquina de Adriana, as vozes, a sua respiração, a força que rompia a dor com mais dor e trazia a cabeça narrada por todos ali presentes.
Julia escolheu narrar sua própria história em terceira pessoa por ter descoberto que o mundo elege o discurso alheio como legítimo. A irresponsabilidade de Julia e Gabriel deu à luz Lucia Rosina Pastore Martins, às 5h36 do dia 27 de junho de 2011, com 40 semanas e 3 dias (ou 42 semanas, de qualquer modo, a termo) com 4100g e 54cm, APGAR 8-10. Lucia foi amamentada nos primeiros 10min de vida. Julia não sofreu lacerações no períneo e nenhuma intervenção foi necessária. A família dormiu na cama onde Lucia foi concebida e nasceu. Os parentes que estavam com medo puderam visitá-la no dia em que nasceu, pegando-a dos braços da mãe que já conversava, andava, sentava.
Às 5h, o avô materno de Lucia, na Ilha do Governador, acordava para fazer sua oração matinal. Espiritualmente, teve contato com sua avó Rosina, muito religiosa, que pariu seus filhos igualmente em casa. E a tia do Gabriel, antes de saber que Julia estava grávida, teve um sonho com sua avó, também Rosina, que segurava uma menina nos braços. No instante do parto, Julia recebeu sua filha no peito com o cordão ainda pulsando, olhou para Gabriel e disse: "vamos chamá-la Lucia Rosina, amor?" Ao comunicarem à família a escolha do nome, e o momento desta escolha, tiveram certeza de que foram somente um canal para que se cumprisse algo que seu entendimento pouco pode alcançar.


segunda-feira, 16 de maio de 2011

sobram vagas no pré-natal

a beleza
a filha da puta da beleza
um vai se foder à beleza

a estética assusta
mais que um coração dilacerado
mais que um prolapso da válvula mitral

a beleza
a fila do setor de cirurgia plástica não admite
atrasos porque a fila é grande e quanta gente aguarda

sobram vagas no pré-natal
sobram vagas na cardiologia mas na cirurgia
plástica não cardíaca
também na angiologia

sobram vagas no pré-natal
vão se foder os bebês
as enfermeiras elogiam o cartão de pré-natal onde constam em dia os exames as consultas os carimbos assim como os críticos elogiam a métrica as rimas a volúpia dos versos o selo da editora

venham ver que beleza:
os seios afilados os narizes siliconados esperando em série a revisão do doutor
sobram vagas no pré-natal e depois do parto lipoescultura

e que diferença faz se eu não sei dizer se sou eu quem tem os carimbos da consulta do pré-natal e não vou entrar na fila da lipoescultura que diferença faz a minha pontuação ou as medidas do verso cintura busto

esta outra mulher de quem só eu poderia ser a mãe

este homem que não me conhece e me julga
(a cada dia mais me julga)
(a cada dia acha que sabe mais de mim)
(a cada dia acha que manda mais em mim)
(a cada dia se sente mais responsável por mim)
à beira de uma morte que desconhece
(e que morte não se desconhece?)

esta mulher que só eu poderia ser
(a cada dia mais dela sou mãe)
(a cada dia mais ela sou)

este homem que ainda não é
(a cada dia pude menos ser mãe)
(a cada dia julgo mais necessário que mãe fosse)
(a cada dia sei mais distante compreender)
(e que vida se conhece?)

esta mulher que nunca foi por mim
(a cada dia mais eu culpo)
(a cada dia menos eu amo)
(a cada dia
a cada dia)

esta humanidade impregnada nas coisas que andam
(a cada dia a gente sabe mais e diz menos)
(a cada dia a gente diz mais e sabe menos)
(a cada dia a gente é mais perto e mais longe de ser)
quanto mais perto, mais morto

este pai que a gente é do homem
(a cada dia mais equivocado)
(a cada dia esclerosado)
escorado numa bengala que me compreenda

neste momento de não saber o momento

esta dor de não saber se é esta a dor
este sangue que ainda não é
este sono que não vai voltar porque não era
este parto que não sei quando
este deixar de ser duas e ser uma outra e mais outra
esta mãe só que vai morrer em mim para tê-la aqui e
[que ainda será só com ele lá

este coração que vai parar em mim e será vida a mais

PL122/2006


Caros amigos,

Aproveitando o direito à livre expressão que me é garantido constitucionalmente, declaro que sou cristã, maior, heterossexual, casada, mãe, profissional da área de educação e manifesto-me livremente a respeito da PL 122/2006 em resposta à declaração do pastor Silas Malafaia, a quem presto meus respeitos.
Não me cabe aqui nenhuma referência pessoal em relação ao pastor, mas ainda que coubesse, não teria nenhuma crítica a fazer por sua forma de expressão no que tange a questão dos homossexuais, bissexuais e transgêneros (categorias nas quais não me enquadro). Apenas coloco-me como ser, igualmente a ele, pensante das questões publicamente expostas. É claro que, fossem de fato garantidos os direitos de expressão, teríamos que discutir o próprio sistema capitalista em que vivemos, onde apenas alguns têm acesso a determinadas mídias, tanto como expositores (por exemplo, eu que não tenho como veicular meu pensamento na TV) quanto como consumidores (por exemplo, pessoas com menor grau de instrução que não dominem este veículo, a internet).
A respeito das declarações em seu programa, a que assisti na TV e posteriormente encontrei no youtube (http://www.youtube.com/watch?v=dppXTbS_EeM&feature=related,http://www.youtube.com/watch?v=IrtRZK8vZJE&feature=related), gostaria de fazer observações apenas sobre a interpretação dada ao texto da lei. Tendo em vista a religiosidade de nosso povo e o alto índice de analfabetismo funcional de nosso país, muitos indivíduos têm, como única fonte de acesso ao conhecimento, a palavra de seus mentores espirituais. Portanto, muitos brasileiros se furtam o direito de acesso, o direito de pensamento, o direito de contestar, de concordar e o próprio direito de expressão, que aqui, timidamente, em meu pequeno nicho e com pequeníssima abrangência, reivindico.

TRECHOS DO PROJETO DE LEI Nº122/2006


“Art. 8º-B Proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão  homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãs:
Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”

Apesar da clareza do trecho, surge, no discurso do pastor, um pequeno equívoco.  O artigo supracitado refere-se à proibição da manifestação da afetividade homossexual, sendo (e somente sendo) permitidas as mesmas manifestações aos heterossexuais. Portanto, no átrio de sua igreja, no colégio, em ambientes de trabalho, onde de fato não é conveniente permitir manifestações de afetividade (homo ou heterossexual), valem as regras locais. O que o artigo garante é que o homossexual, bissexual e transgênero tenham o mesmo direito que o heterossexual, e não mais direitos.

“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero:
..............................................
§ 5º O disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica.”(NR)

Mais uma vez, percebo um equívoco na interpretação do trecho acima compilado. Este parágrafo vem para garantir o direito à integridade do cidadão. Note bem: mesmo que a ação seja de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica, ela não pode ser violenta, constrangedora, intimidatória nem vexatória – no texto, estes itens estão ligados e não separados como no discurso do pastor. É obvio que o direito do pastor está assegurado pela constituição. Sua expressão filosófica e ideológica, entretanto, não pode violar – e não viola – o direito (agora conquistado) à integridade física e psíquica do indivíduo em questão. Manifestar-se contra a homossexualidade, ainda que eu não concorde, é um direito do cidadão, assim como ser homossexual e não ser agredido, constrangido, intimidado também passa a ser. “Há uma diferença fenomenal entre criticar conduta e discriminar pessoas.”, nas palavras do próprio pastor. E é neste sentido que esta lei é especificação vitoriosa para quem segue a constituição.
“Os grupos mais antidemocráticos da pós-modernidade são os de defesa dos homossexuais”. Considero que esta afirmativa se deve a experiências pessoais do pastor com certos grupos antes de interpretar que o pastor me julgue antidemocrática neste mesmo bolo. Considero-me, em meu pequeno nicho e com pequeníssima abrangência, como parte de um grupo de defesa dos homossexuais. E não sou antidemocrática e provo. Não estou discriminando a pessoa do pastor, apenas criticando a sua postura política, como ferramenta formadora de opinião desta sociedade.
Compartilho o texto do projeto de lei na íntegra e os links para o vídeo do programa.

Saudações.

Julia Pastore



redação final
projeto de lei nº 5.003-b, de 2001


Altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor, dá nova redação ao § 3º do art. 140 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, e ao art. 5° da Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, e dá outras providências.

O CONGRESSO NACIONAL decreta:

Art. 1º Esta Lei altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, e a Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, definindo os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.
Art. 2º A ementa da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar com a seguinte redação:
“Define os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.”(NR)
Art. 3º O caput do art. 1º da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar com a seguinte redação:
“Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.”(NR)
Art. 4º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 4º-A:
“Art. 4º-A Praticar o empregador ou seu preposto atos de dispensa direta ou indireta:
Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”
Art. 5º Os arts. 5º, 6º e 7° da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passam a vigorar com a seguinte redação:
“Art. 5º Impedir, recusar ou proibir o ingresso ou a permanência em qualquer ambiente ou estabelecimento público ou privado, aberto ao público:
Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos.”(NR)
“Art. 6º Recusar, negar, impedir, preterir, prejudicar, retardar ou excluir, em qualquer sistema de seleção educacional, recrutamento ou promoção funcional ou profissional:
Pena – reclusão de 3 (três) a 5 (cinco) anos.
Parágrafo único. (Revogado).”(NR)  
“Art. 7º Sobretaxar, recusar, preterir ou impedir a hospedagem em hotéis, motéis, pensões ou similares:
Pena – reclusão de 3 (três) a 5 (cinco) anos.”(NR)
Art. 6º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 7º-A:
“Art. 7º-A Sobretaxar, recusar, preterir ou impedir a locação, a compra, a aquisição, o arrendamento ou o empréstimo de bens móveis ou imóveis de qualquer finalidade:
Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”
Art. 7º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar acrescida dos seguintes art. 8º-A e 8º-B:
“Art. 8º-A Impedir ou restringir a expressão e a manifestação de afetividade em locais públicos ou privados abertos ao público, em virtude das características previstas no art. 1º desta Lei:
Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.” 
“Art. 8º-B Proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão  homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãs:
Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”
Art. 8º Os arts. 16 e 20 da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passam a vigorar com a seguinte redação:
“Art. 16. Constituem efeito da condenação:
I – a perda do cargo ou função pública, para o servidor público;
II – inabilitação para contratos com órgãos da administração pública direta, indireta ou fundacional; 
III – proibição de acesso a créditos concedidos pelo poder público e suas instituições financeiras ou a programas de incentivo ao desenvolvimento por estes instituídos ou mantidos;  
IV – vedação de isenções, remissões, anistias ou quaisquer benefícios de natureza tributária;
V – multa de até 10.000 (dez mil) UFIRs, podendo ser multiplicada em até 10 (dez) vezes em caso de reincidência, levando-se em conta a capacidade financeira do infrator;
VI – suspensão do funcionamento dos estabelecimentos por prazo não superior a 3 (três) meses.
§ 1º Os recursos provenientes das multas estabelecidas por esta Lei serão destinados para campanhas educativas contra a discriminação.
§ 2º Quando o ato ilícito for praticado por contratado, concessionário, permissionário da administração pública, além das responsabilidades individuais, será acrescida a pena de rescisão do instrumento contratual, do convênio ou da permissão.
§ 3º Em qualquer caso, o prazo de inabilitação será de 12 (doze) meses contados da data da aplicação da sanção. 
§ 4º As informações cadastrais e as referências invocadas como justificadoras da discriminação serão sempre acessíveis a todos aqueles que se sujeitarem a processo seletivo, no que se refere à sua participação.”(NR)
“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero:
§ 5º O disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica.”(NR)
Art. 9º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. 20-A e 20-B:
“Art. 20-A. A prática dos atos discriminatórios a que se refere esta Lei será apurada em processo administrativo e penal, que terá início mediante: 
I – reclamação do ofendido ou ofendida; 
II – ato ou ofício de autoridade competente
III – comunicado de organizações não governamentais de defesa da cidadania e direitos humanos.” 
 “Art. 20-B. A interpretação dos dispositivos desta Lei e de todos os instrumentos normativos de proteção dos direitos de igualdade, de oportunidade e de tratamento atenderá ao princípio da mais ampla proteção dos direitos humanos. 
§ 1º Nesse intuito, serão observadas, além dos princípios e direitos previstos nesta Lei, todas as disposições decorrentes de tratados ou convenções internacionais das quais o Brasil seja signatário, da legislação interna e das disposições administrativas.
§ 2º Para fins de interpretação e aplicação desta Lei, serão observadas, sempre que mais benéficas em favor da luta antidiscriminatória, as diretrizes traçadas pelas Cortes Internacionais de Direitos Humanos, devidamente reconhecidas pelo Brasil.”
Art. 10. O § 3º do art. 140 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, passa a vigorar com a seguinte redação:
“Art. 140.
§ 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero, ou a condição de pessoa idosa ou  portadora  de deficiência:
Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos e multa.”(NR)
Art. 11. O art. 5º da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, passa a vigorar acrescido do seguinte parágrafo único: 
“Art. 5º
Parágrafo único. Fica proibida a adoção de qualquer prática discriminatória e limitativa para efeito de acesso a relação de emprego, ou sua manutenção, por motivo de sexo, orientação sexual e identidade de gênero, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar ou idade, ressalvadas, neste caso, as hipóteses de proteção ao menor previstas no inciso XXXIII do caput do art. 7º da Constituição Federal.”(NR)
Art. 12. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Sala das Sessões, em 23 de novembro de 2006.

Relator

quarta-feira, 4 de maio de 2011

de repente gosto de pesadelo na madrugada
constipação desse tempero insistente
à temperatura ainda nua do dia de hoje
vem como fosse carta tua letra
parece que se faz caligrafia quando
e que que a gente faz se isso pulsa tão fácil
e que que a gente faz se isso pulsa tão
e que que a gente faz
e que

riso é coisa tão séria, menino
que te cabe sem que te notem em mim

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Por que Fluminense?

porque um dia eu experimentei gol aos 43 do segundo tempo
teve também essa coisa de taça e de contratação de gênio
mas gol aos 43 do segundo tempo
(ou pra taça ou pra classificação)
é de um gosto de grito mesmo grávida onde só dá pra ser da janela
não é a mesma coisa que grito em coro só
é tipo quase não, mas eu sabia
e um monte de gente que sabia vê sua certeza desmoronar a matemática
os números desmancham como pó ao vento
naquele povo que todo artista odeia, nos críticos, uma cara de "ué?"
pra quem não sente a verdade que contraria a lógica, só resta tentar diminuir
"timinho, terceira divisão, time de viado"
sim, é time de viado contrariando tudo o que vigora à força
o Fluminense é a flor que brota no asfalto
o Fluminense "pulveriza o impossível"

"O Fluminense não nasceu para ser unanimidade nem massa de manobra do interesse demagógico das elites opressoras. O Fluminense nasceu para atravessar a harmonia do bloco dos contentes. Nasceu para incomodar o senso comum. Essa é a nossa sina".

"O Fluminense independe de conquistas, o Fluminense está entre o ser e o devir, o Fluminense é o ser. É Fluminense e basta”.
Sidney Garambone


    "Para ser um gigante, não fazem falta títulos mirabolantes, equipes inesquecíveis ou milhões de fanáticos torcedores. O Fluminense tem tudo isso, como de resto quase todos os grandes clubes mundo afora. Não é isso que torna o Tricolor diferente dos demais. Para ser um gigante é preciso mostrar valor diante do inimigo invencível e face ao mais profundo dos abismos. Por duas vezes, ao longo de seu primeiro centenário, o Fluminense esteve à beira da aniquilação – e sobreviveu. Foi com tal fidalguia que o clube das três cores que traduzem tradição se tornou uma lenda. Um clube que, quando menor pareceu, aí mesmo foi que provou ser um gigante".
    Marcos Caetano
"Grandes são os outros, o Fluminense é enorme."
Nelson Rodrigues








segunda-feira, 11 de abril de 2011

colo fechadinho ainda mãe

nada não
talvez gases, prisão de ventre, mau humor, ciatalgia, lombalgia
ter ido ao médico custaria o transporte e muitas horas
agora já sei que não foi nada

esperar esperar esperar
uma sucessão de dias e sintomas
talvez nem tanto os sintomas, mas
talvez um sentimento profundo de que é agora

enquanto gases, prisão de ventre, mau humor, ciatalgia, lombalgia,
enxaqueca, sudorese, cáries, edemas, rinite
enquanto pudessem estar disfarçados no cotidiano seria ótimo
mas o cotidiano é de esperar esperar esperar:
não há disfarce que não permita perceber

não há justificativa para este texto senão
a tentativa de tornar cotidiana a espera
já que a escrita um dia foi

ainda não é a hora de um poema
colo fechadinho ainda mãe

quarta-feira, 23 de março de 2011

pra essa gente aparecer na fotografia

biquinho pra fotografia
ângulo certo

na sinuca na festa na praia com os gatos
em verdade em verdade o que
existem são as sombras do que alguém teria sido

ao travesseiro umas lágrimas de vazio
(aquela de braços dados com o Drummond é muito boa)
jamais se perguntar sobre o poeta estar de costas pro mar

domingo, 23 de janeiro de 2011

essa reza só me trouxe
dinheiro pela janela
esse pai não me dá de morrer

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

da série das razões

I - Eclodir

dá-nos, senhor,
a culpa de cada dia.

II - Causa

porque querer não pode ser jamais querer além do que deus te dá. porque a vitória é chegar onde se está. porque à frente não existe senão a morte. porque a poesia tem que residir na pequenez. porque de grandioso só há o indizível.

III - Milagre

o que eu senti não importa. um verme, do pó. isso aos olhos do pai, de seus filhos todos, de quem quer que seja mais ou mesmo de mim.
escolher estar de olhos abertos é luxo que só a fé explica e estou farta de coisa santa nesse mundo.
milagres, o milagre da vida, o milagre do parto, o milagre do leite vertido, milagres bobagem.
os doutores dizem que o que eu senti mexer foram gases. só gases.

IV - Energia

"esse bagulho de energia é a maior viagem."
sim, é a maior viagem. uma viagem que vai e vem, uma onda louca. se tu tá a fim, coloca a mão aqui e sente a maior energia. é. só. o maior barato, aí.
mas, aí, se liga só, o bagulho do movimento aqui dentro não é de gases não, tá ligado? e se eu não tô a fim, nem dá pra tirar a mão e não sentir. é. nem.

V - Importância

sabe, eu gostaria de nem me importar com as coisas que faz ou deixa de fazer.
é que esse bagulho de energia, tá ligado? tá ligado.

VI - Aprendizado

tudo nessa merda tem um motivo. a gente diz que acha que tem mas a gente sabe que tem.
sou peixes com ascendente escorpião.
saber de menos requer muita fé. excessiva intuição me levou à descrença e, sei não.
queria mais o que fazer, mas sinto gases se movendo em meu intestino.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Composizione per tre voci

Primo Movimento - Acqua

pp
Bambino tum.tum.tum.tum.tum.tum.tum.tum.tum.tum
Mamma tum........tum........tum........tum........tum
Pappà ................................................................

ff
Bambino tum.tum.shhh....shhh....tum.tum.tum.tum|
Mamma tum.tum.tum.tum.tum.tum.tum.tum.tum.tum|
Pappà ................ah!.............................................|

terça-feira, 23 de novembro de 2010

quer saber

onde estão as coisas que escondi na gaveta?
onde estão as coisas que escondeu na caixa?
qual a importância de ter tudo guardado enquanto os muros estão ruindo ruindo ruindo?

quer saber?
as coisas que escondi na gaveta não estão mais na gaveta.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

incapaz de perceber o punhal que dedilha dessa dor só minha.
a prenhez o abismo da janela ao térreo cordas estas sim de aço.
ficou tudo lembrança de lá de onde não estive e ele gozou da minha cara nela nelas tantas quantas.
simplesmente nada escrito em verso pelo agudo transverso ao meu peito ainda mudo pescoço cordas.
atirei os copos na parede sim.
não porque não quisesse mais a coisa sagrada mas porque não entendo querer a faca o pai.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

lista de compras

sabonete, sabão em pó, margarina
papel toalha, condicionador, desodorante,
leite, trigo, ovos
alguma coisa que ainda tem me trazido à caneta ao papel

sexta-feira, 16 de julho de 2010

da incomunicabilidade I

deixar de mim apenas um risco intenso
esses poemas de poucos verbos
tudo o que poderia ter sido ação demais
a verdade do que foi e teve seu fim digno
deixou para trás o que poeira dissolveu

tanto despeito meus poemas não são difíceis
virar a página e toda poesia já subtexto
despertar e todo amanhã já presente
falecer e toda vida já memória

publicado já o título não comporta esses versos
deixar para trás os endereços a família

lançamento

Caros "leitores" (por mais irônico que seja tratá-los assim neste blog),

Tenho o prazer de convidá-los para o o lançamento do meu segundo livro de poemas, você não lê, que sairá pela editora oficina raquel junto com as medicinas, de sebastião edson macedo.

A noite de autógrafos ocorrerá no dia 20 de julho, terça-feira, no Bar Luis, a partir das 19h.

Bar Luis:

Rua da Carioca, 39 • Centro • Rio de Janeiro.


Junto com o livro, sairá o cd lida, com leituras de alguns poemas do livro por Ronaldo Lima Lins, Cinda Gonda,
Sebastião Edson Macedo, João Pedro Fagerlande, Manuela Berardo, PH Wolf, Jimmy Charles Mendes, Rafael Lemos e Rayssa Galvão. Participaram também, no violão: Gabriel Otoni e Rodrigo Pastore, baixo: Rodrigo Pastore, flautas: Arthur Souza e Sebastião Edson Macedo, sanfona: Fred Michael Tkotz. o Rodrigo e o Gabriel foram os produtores.

Confira algumas faixas no www.myspace.com/pastorejulia.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

tem gente que eu olho e fico numa nostalgia de tempo
mas que passa porque não é naquela gente que eu sinto
é na gente que conhece a gente que eu amo
é no que eu fui sem ter me dado conta e hoje
eu olho e me vejo tão estúpida, mas uma nostalgia

eu tenho a minha gente que eu amo e que me desperta
mas tem gente que me faz lembrar delas e é mais estranho que amar gente
e é maior, porque é um amor escondido na indiferença

eu tenho o que eu me amo em mim
mas tem gente que me traz uma que fui e não me escondo na indiferença
e é um sentimento que tudo está acabando
que os ápices são desgastes e que tudo
pode acabar o que
eu sinto e tudo os ápices

e não é a gente que move isso tudo agora foi
apenas o meu anel que eu rodei parecia uma lagarta








terça-feira, 29 de junho de 2010

pensava no carrinho de rolimã

o que eu precisava era de matar o meu amor um pouquinho. eu continuava amando de enorme, mas as coisas que eu deixava de doer é que eram. eu precisava mesmo era de nem ter chegado nisso de amor, que o meu é imensidão demais, mas quem faz que volta essa coisa que é toda que é? o que eu precisava agora nunca que dá tempo de ser e já era outra coisa que eu teimo que é o mesmo meu amor que nem foi que nem seria mais. eu precisava, mas não é preciso viver quanto necessário é.

sabemos de cor a auréola das horas

sabemos de cor a auréola das horas
ainda assim, fazemos passar a dor no céu
vale o peso de meio corpo doado aos santos
mas o santo inteiro doa seu corpo éter ao peso
e que fazemos com toda essa míngua
a sapiência a sabedoria, o saber
que fazemos com tudo isso quase nada aqui dentro
deixa passar a dor dos seus olhos nela
deixo e eles me voltam ao seio
a sapiência a sabedoria o saber
e a melhor noite da vida a selar o passar das horas de uma
______________________ [vida inteira